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E lá estão eles. Nas prateleiras de praticamente todas as livrarias. As
mesmas capas em dégradé de cores agradáveis – geralmente lilás, verde
esperança, rosa, azul claro e em tom pastel. Claro, não podemos nos esquecer do
tipo de letra dessas capas, sempre em itálico ou nesses tipos de fonte que
lembram uma caligrafia feminina bem caprichada. A literatura de auto-ajuda é uma
avalanche de títulos, ocupam todos os lugares.
Sim, a literatura de auto-ajuda e os seus chavões, linguagem estéril, lugares
comuns.
A literatura de auto-ajuda não ajuda a ninguém, a não ser, é claro, seus
autores e editoras, a ficarem algumas dezenas de milhões mais ricos.
Auto-ajuda é dependência. Ela promete algo que não pode cumprir, e então o
leitor sempre ficará na expectativa que no próximo livro desse tipo estará a
chave para sua felicidade e seu encontro consigo mesmo. Só que isto nunca
acontece. É uma ilusão criada pelas editoras e pelos autores.
É claro que essa ilusão só existe porque também existe uma grande parcela da
população que acha que felicidade e encontro consigo mesmo são coisas que podem
ser adquiridas em estilo “fast-food”, instantaneamente, bastando para isso a
compra de tal e tal livro de auto-ajuda - sem saber ou fazendo de conta que não
sabe que o papel da literatura, da cultura e das artes não é este. A auto-ajuda
é um sintoma do quanto a nossa época está decadente, pois todos estão imersos
numa tal velocidade de vida que ninguém quer mais ter o trabalho de ajudar ao
próximo ou de ter a humildade de pedir ajuda ao próximo então o que resta é a
ilusão de se auto ajudar para com isso ter um pouco de paz. A auto-ajuda é o
subproduto de um mundo de egoístas solitários e sem tempo. A auto-ajuda está
para o verdadeiro desenvolvimento da consciência de cada um assim como a
masturbação está para o amor.
O estelionatário só existe porque também existe aquela pessoa que quer pagar
pelo produto de origem duvidosa. E quem paga pela auto-ajuda? Pobres não têm
dinheiro, e ricos não se interessam por pechinchas, então cabe à gloriosa classe
média o mérito de alimentar essa indústria que é responsável pelo
desaparecimento dos bons autores das vitrines das livrarias. Carl Gustav Jung
disse certa vez que a mediocridade é a meta dos fracassados, e isso é o grande
tormento da classe média: o fracasso de estar no anonimato da média, onde
ninguém faz diferença nenhuma. Isso deixa qualquer um deprimido, com a sensação
de que a vida não tem relevância nenhuma, e para curar esse sentimento de
fracasso vamos apelar para os gurus dos livros de auto-ajuda, com suas frases de
efeito e filosofias de água-com-açúcar, próprios não para despertar a meditação,
mas para semear o entorpecimento como se fosse uma espécie de droga.
E por falar em meditação, esse é um dos maiores enganos disseminados por essa
pseudoliteratura é justamente esse: eles querem fazer crer que meditação é
sinônimo de relaxamento.
Ora, isso é quase um crime, uma desonestidade intelectual inominável!
Sabe por quê?
Porque quem está relaxado simplesmente não está meditando, pois do contrário
não estaria relaxado!
Meditar não é ficar em posição de iogue com os olhos fechados de sono!
Meditar é fazer aquilo que Nietzsche fez, o que Sartre fez, que o fez
Kierkegaard, o que fez Albert Camus, o que fez Franz Kafka... é se consumir por
chamas do seu próprio inferno, é descer até os mais podres abismos de sua alma,
é olhar para aquilo que dá asco em si mesmo, é travar uma furiosa luta contra os
seus fantasmas, é gritar sem voz diante do nada da existência. E depois disso
criar, criar formas, idéias ou outras coisas, mesmo que para isso seja preciso
sangrar por dentro e sentir dores incomensuráveis. Com certeza a meditação
verdadeira nada tem a ver com relaxamento e nem com auto-ajuda. Aliás, a
propaganda desse tipo de “literatura” dizendo que ensina as pessoas a meditarem
é tão fraudulenta quando os comerciais de cigarro dos anos 80, em que apareciam
jovens praticando esportes radicais e depois fumando — como se um fumante
tivesse fôlego para praticar esportes radicais!... e da mesma maneira, quem lê
esses livros de auto-ajuda não tem o “fôlego” intelectual necessário para
meditar.
Outro irritante engano da tal da auto-ajuda é que, em tais livros, o Oriente
está cheio de gurus e mestres sapientes, com frases certeiras para todo o
momento. Nesses livros, o Oriente é praticamente um paraíso da sabedoria.
Chineses, japoneses, indianos...povos cheios de amor para dar!
E então eu me pergunto se o Japão, a China e a Índia do mundo real sejam os
mesmos desses livros. Fico pensando onde está a sabedoria do Japão, uma nação
estressada com a maior taxa de suicídios do mundo e com um passado sangrento de
guerras contra os países vizinhos. Isso sem contar as suas frotas de navios
baleeiros que caçam na Antártida sob o disfarce sem vergonha de que são navios
de pesquisa, e caçam baleias sem parar mesmo que para isso tenham que passar por
cima dos pequenos barcos de protesto do Greenpeace. Fico pensando onde está a
sabedoria na China, nação que enviou tanques para esmagar os manifestantes da
Praça da Paz Celestial em 1989, nação sem democracia alguma, centenas de mísseis
atômicos, que tortura e mata opositores arbitrariamente e maior poluidor do
mundo, isso sem contar que seus trabalhadores vivem em regime de trabalho
escravo, trabalhando 12 ou 14 horas por dia para ganhar uns 100 dólares por mês.
E fico pensando onde está a sabedoria na Índia, país de centenas de milhões de
pessoas que passam fome e são discriminados pela sua casta e que vive em estado
de guerra permanente com o Paquistão.
De que adianta frases de efeito diante de todas essas misérias?
Por fim o último ponto: em última análise, se a pessoa que enriquecer sua
alma lendo alguma coisa que preste, que leia então Lima Barreto, Clarice
Lispector, James Joyce, Cruz e Souza, Hermann Hesse... leia os grandes livros da
humanidade, livros que permitem no mínimo que você discorde deles e com isso
desenvolva seu espírito crítico. Aproveite para ir aos bons museus, assistir a
bons filmes, ouvir boas músicas... com certeza as grandes obras da humanidade
têm muito mais a oferecer, tem muito mais a ajudar do que aquelas capas em
degrade, com letras em itálico e que infestam as livrarias assim como coloridas
notas de um desespero de um mundo que quer fugir de si mesmo, preferindo por
isso o fácil e o imediato sem lembrar que foi justamente o fácil e o imediato
que o levou a essa situação de desespero.
Escrito por Josiel Vieira de Araújo em 19 de janeiro de 2010
textos de josiel podem ser encontrados em:
http://virtualbooks.terra.com.br/
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