::. Bakhtin e a estética do Romance: Quem está falando?
José Atanásio | 21/05/2003
::. Reflexões sobre as Teorias de Aquisição da Linguagem.

(Antes de qualquer exame sobre a abordagem deste texto, sugerimos a leitura dos quatro anteriores, que são uma preparação para a melhor compreensão do conteúdo deste. São eles: Reflexões sobre as Teorias da Aquisição da Linguagem, Antecedentes do Construtivismo, A Construção da Psicolingüística e A revolução na Psicologia ao sabor do marxismo).

Quem está falando?
“Se não houvesse circunstâncias excepcionalmente complicadas, não haveria revolução. Quem teme os lobos não vai à floresta” (V. I. Lênin, Para a Tomada do Poder, vol.II, in: Leo Huberman — História da Riqueza do Homem, p.273). Esse pensamento marxista acentua o ponto crítico do discurso de Lênin ao anunciar a construção de uma nova ordem socialista. Vygotsky, assim como Bakhtin, portavam no sangue russo um recorte de sua época, na qual tudo deveria ser questionado para que o “novo” pudesse agregar valor social, sem temer os “lobos” das filosofias reinantes no início do séc. XIX. De certa forma Vygotsky foi implacável com os pensamentos reinantes na Psicologia de sua época e não poupou críticas aos conceitos de que o cérebro consistia em um sistema de funções fixas e imutáveis. Sua síntese estabeleceu um elemento novo na Psicologia que nortearia o ponto central de sua abordagem do ser biológico e do ser social. O cérebro passa a ser visto por ele como um sistema aberto, como explica Marta Khol em “Vygotsky: Aprendizado e desenvolvimento”, p.24, ao afirmar que o cérebro é dotado de “grande plasticidade, cuja estrutura e modos de funcionamento são moldados ao longo da história da espécie e do desenvolvimento individual”.

Do mesmo modo que Vygotsky critica as principais correntes e tendências da Psicologia contemporânea, em sua época, Bakhtin também elabora sua concepção dialógica da linguagem a partir de uma crítica radical à outra corrente filosófica também de sua época: a Lingüística. Inconformado e insatisfeito com os conceitos reinantes da Lingüística tradicional, Bakhtin constrói sua concepção de linguagem a partir de uma crítica radical às grandes correntes da Lingüística contemporânea, por considerar que essas teorias não trabalhavam a língua como um fenômeno social. As teorias lingüísticas conhecidas até então são agrupadas por ele em duas grandes correntes: o objetivismo abstrato (OA), representado principalmente pela obra de Saussure, e o subjetivismo idealista (SI), representado em especial pelo pensamento de Humboldt. Bakhtin submete essas duas correntes a uma rigorosa crítica, por considerar que, ao reduzir a linguagem ou a um sistema abstrato de formas (OA) ou à enunciação monológica isolada (SI), constitui um obstáculo à apreensão da natureza real da linguagem como código ideológico.

Os postulados de Bakhtin residem na visão do diálogo como elemento constitutivo da linguagem e da consciência ideológica. Sua ênfase está na importância da linguagem como fenômeno socioideológico e apreendida dialogicamente no fluxo da história. Bakhtin introduz em sua visão do diálogo algo como integrante do funcionamento concreto da linguagem e da consciência. A importância do monólogo, enquanto processo que inaugura um novo diálogo, e do anônimo, enquanto resultado do apagamento da voz do outro na “palavra alheia” apropriada, indica o movimento de mudança no processo de diálogos, expresso nos textos de Bakhtin. Em sua visão crítica, a criança recebe na consciência desde seu nome, vindo pelo discurso da mãe, até às idéias elaboradas por discursos mais complexos. Tudo que chega à consciência da criança vem do mundo exterior, carregado de entonação, tonalidade, emoção e valoração. Assim, a consciência do homem desperta envolvida na consciência do outro.

Enquanto Vygotsky tece sua teoria, considerando a linguagem como intercâmbio social que introduz um pensamento generalizante, Bakhtin ampliaria sua abordagem com ênfase em dois elementos de sua teoria, dialogia e intertextualidade, considerando o texto o instrumento de comunicação discursiva. Sua aparição como escritor se dá quando escreve voltado para o fenômeno literário um trabalho intitulado “O Autor e o Personagem da Atividade Estética”, que não foi publicado senão em 1979, porém no mesmo período surge seu livro sobre Dostoievski, 1929. Foi com o encontro dessa obra, Crime e Castigo, de Dostoievski, que Bakhtin desenvolveu o terceiro elemento importante de sua teoria, a noção de polifonia. O trecho inicial do romance nos dá uma idéia polifônica de Dostoievski:

Capítulo I. “Nos começos de julho, por um tempo extremamente quente, saíra um rapaz de um cubículo alugado, na travessa de S..., e, caminhando devagar, dirigia-se à ponte de K...
Discretamente, evitou encontrar-se com a dona da casa na escada. O tugúrio em que vivia ficava precisamente debaixo do telhado de uma alta casa de cinco andares e parecia mais um armário do que um quarto. A mulher que lho alugara, com refeição completa, vivia no andar logo abaixo, e por isso, quando o rapaz saía tinha de passar fatalmente diante da porta da cozinha, quase sempre aberta de par em par sobre o patamar. E todas as vezes que procedia assim sentia uma mórbida impressão de covardia, que o envergonhava e fazia franzir o sobrolho. Estava zangado com a dona da casa e tinha medo de encontrá-la.

E isto não porque fosse covarde ou tímido, pelo contrário; simplesmente, havia algum tempo já se encontrava num estado de excitação e enervamento parecido com o da hipocondria. Estava a tal ponto apegado ao seu quarto e afastado de todos, que receava encontrar-se com quem quer que fosse e não somente com a dona da casa.

A pobreza deprimia-o; mas havia também já algum tempo que até isso deixara de incomodá-lo. Abandonara por completo os seus trabalhos cotidianos e não queria preocupar-se com eles. Na realidade, não temia a dona da casa, por muito que pudesse tramar contra ele. Agora, ter de parar na escada, escutar todas as tolices daquela mulher, estúpida até o absurdo, e que não lhe interessavam absolutamente nada; todos aqueles disparates a respeito do pagamento, aquelas ameaças e lamentações, e, ademais, ter de falar, desculpar-se, mentir, não, preferia atirar-se como um gato pelas escadas abaixo e deixar-se cair ao abandono, contanto que não visse ninguém. Além disso, dessa vez, o seu receio de encontrar-se com a sua credora acabou por chocá-lo a ele próprio, assim que se viu na rua:

´Por que, diabo, me preocupo eu desta maneira e sofro todas estas inquietações por causa de uma bagatela?´, pensou, sorrindo estranhamente. ´Hum! Sim, é isso, está tudo ao alcance do homem e tudo lhe vem parar às mãos, simplesmente, o medo... Isto é um axioma... É curioso: de que será que as pessoas têm mais medo? O que mais temem é o primeiro caso, a primeira palavra... Mas parece-me que já estou falando demais. Afinal, não faço mais nada senão falar. Embora também se pudesse dizer que, se falo, é porque não faço nada. A verdade é que durante este último mês deu-me a mania de falar, enquanto me deixo ficar estendido ruminando no meu canto... sobre ninharias. Bem, e afinal, aonde vou eu? Serei capaz disso? Será isso uma coisa séria? Não, de maneira alguma. Divirto-me mas é à custa da minha imaginação, é uma brincadeira! É isso mesmo, uma brincadeira!´

Na rua fazia um calor sufocante, ao qual se juntava a aridez, os empurrões, a cal por todos os lados, os andaimes, os tijolos, o pó e esse mal cheiro de verão, conhecido por todos os petersburgueses que não possuem uma casa de campo”. DOTOIEVSKI, Fiodor Mikhailovitch, Crime e Castigo, tradução de Natália Nunes. — São Paulo, Abril Cultural, 1982.

Quem está falando? Essa é a grande tônica na abordagem de Bakhtin sobre os planos dos diálogos de um discurso. Um texto normalmente é impregnado de vários elementos ideológicos integrantes do processo comunicativo. Para Bakhtin, assim como para Vygotsky, o valor histórico da linguagem leva à aquisição de conhecimento que faz do indivíduo um ser social. Evidentemente, um ser social traz consigo sua visão de mundo adquirida pela relação discursiva abstraída desde a infância, por meio dos diálogos com a mãe, passando pelo período escolar, até sua fase mais transcendental nas relações sócio-culturais. Essa mecânica faz do indivíduo um ser que fala por si, pelo outro e por intermédio do outro, ou seja, um ser polifônico, que discursa em planos dialógicos.

Nesse sentido, Bakhtin fala sobre o monólogo, enquanto processo que inaugura um novo diálogo. Fala, também, do anônimo, enquanto resultado do apagamento da voz do outro na “palavra alheia” apropriada (esse artifício indica o movimento de mudança no processo de diálogos expresso nos textos de Bakhtin). Para Bakhtin, a criança recebe na consciência desde seu nome, vindo pelo discurso da mãe, até as idéias elaboradas por discursos mais complexos. Tudo que chega à consciência da criança vem do mundo exterior, carregado de entonação, de tonalidade, de emoção e de valoração. Assim, a “consciência do homem desperta envolvida na consciência do outro”.
Há outro movimento nos argumentos de Bakhtin que atua na consciência monologizada. Articulada em “palavras neutras”, que prescindem do eu e do outro, ele se constitui como uma terceira pessoa, como um ele. Assim, para Bakhtin, as ciências exatas e naturais seriam formas monológicas de conhecimento, em que coloca o sujeito que tem a faculdade de conhecer diante de “uma coisa sem voz”. Ele conclui que “coisa” e pessoa não se dão como substâncias absolutas, mas como limites da relação do homem com o que lhe é externo. Já a noção de diálogo se apresenta como uma implicação da noção de alteridade constitutiva que Bakhtin se baseia sobre a relação entre autor e personagem. Só o outro dispõe do que ele chama de “excedente de visão” e é essa a condição de possibilidade da consciência de si próprio.

Finalmente, dessa condição de limitação humana é possível pensar o diálogo enquanto relação de mútua determinação em que o eu se constitui por meio do outro e como outro do outro. Assim, na relação estética do romance, Bakhtin aponta que a relação autor-personagem se dá como acontecimento estético a partir do momento em que o autor assume esse excedente de visão, como uma posição que lhe permite construir a personagem como totalidade. Para ele, o texto vincula também a questão da autoria. Uma dessas formas surge da necessidade de distinguir a instância em que se representa da instância do representado, distinção esta que faz do autor o “portador de um princípio puramente representativo”. Por essa razão, Bakhtin volta o falar do escritor para o autor, como “alguém que é capaz de trabalhar com a língua, situando-se fora dela: alguém que possui o dom da fala indireta”. Isso ocorre logo no início da obra de Dostoievski, conforme se observa no texto reproduzido acima.





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