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(Antes de qualquer exame sobre a abordagem deste texto,
sugerimos a leitura dos quatro anteriores, que são uma preparação para a melhor
compreensão do conteúdo deste. São eles: Reflexões sobre as Teorias da Aquisição
da Linguagem, Antecedentes do
Construtivismo, A Construção da
Psicolingüística e A revolução
na Psicologia ao sabor do marxismo).
Quem está
falando?
“Se não houvesse circunstâncias excepcionalmente complicadas,
não haveria revolução. Quem teme os lobos não vai à floresta” (V. I. Lênin, Para
a Tomada do Poder, vol.II, in: Leo Huberman — História da Riqueza do Homem,
p.273). Esse pensamento marxista acentua o ponto crítico do discurso de Lênin ao
anunciar a construção de uma nova ordem socialista. Vygotsky, assim como
Bakhtin, portavam no sangue russo um recorte de sua época, na qual tudo deveria
ser questionado para que o “novo” pudesse agregar valor social, sem temer os
“lobos” das filosofias reinantes no início do séc. XIX. De certa forma Vygotsky
foi implacável com os pensamentos reinantes na Psicologia de sua época e não
poupou críticas aos conceitos de que o cérebro consistia em um sistema de
funções fixas e imutáveis. Sua síntese estabeleceu um elemento novo na
Psicologia que nortearia o ponto central de sua abordagem do ser biológico e do
ser social. O cérebro passa a ser visto por ele como um sistema aberto, como
explica Marta Khol em “Vygotsky: Aprendizado e desenvolvimento”, p.24, ao
afirmar que o cérebro é dotado de “grande plasticidade, cuja estrutura e modos
de funcionamento são moldados ao longo da história da espécie e do
desenvolvimento individual”.
Do mesmo modo que Vygotsky critica as
principais correntes e tendências da Psicologia contemporânea, em sua época,
Bakhtin também elabora sua concepção dialógica da linguagem a partir de uma
crítica radical à outra corrente filosófica também de sua época: a Lingüística.
Inconformado e insatisfeito com os conceitos reinantes da Lingüística
tradicional, Bakhtin constrói sua concepção de linguagem a partir de uma crítica
radical às grandes correntes da Lingüística contemporânea, por considerar que
essas teorias não trabalhavam a língua como um fenômeno social. As teorias
lingüísticas conhecidas até então são agrupadas por ele em duas grandes
correntes: o objetivismo abstrato (OA), representado principalmente pela obra de
Saussure, e o subjetivismo idealista (SI), representado em especial pelo
pensamento de Humboldt. Bakhtin submete essas duas correntes a uma rigorosa
crítica, por considerar que, ao reduzir a linguagem ou a um sistema abstrato de
formas (OA) ou à enunciação monológica isolada (SI), constitui um obstáculo à
apreensão da natureza real da linguagem como código ideológico.
Os
postulados de Bakhtin residem na visão do diálogo como elemento constitutivo da
linguagem e da consciência ideológica. Sua ênfase está na importância da
linguagem como fenômeno socioideológico e apreendida dialogicamente no fluxo da
história. Bakhtin introduz em sua visão do diálogo algo como integrante do
funcionamento concreto da linguagem e da consciência. A importância do monólogo,
enquanto processo que inaugura um novo diálogo, e do anônimo, enquanto resultado
do apagamento da voz do outro na “palavra alheia” apropriada, indica o movimento
de mudança no processo de diálogos, expresso nos textos de Bakhtin. Em sua visão
crítica, a criança recebe na consciência desde seu nome, vindo pelo discurso da
mãe, até às idéias elaboradas por discursos mais complexos. Tudo que chega à
consciência da criança vem do mundo exterior, carregado de entonação,
tonalidade, emoção e valoração. Assim, a consciência do homem desperta envolvida
na consciência do outro.
Enquanto Vygotsky tece sua teoria, considerando
a linguagem como intercâmbio social que introduz um pensamento generalizante,
Bakhtin ampliaria sua abordagem com ênfase em dois elementos de sua teoria,
dialogia e intertextualidade, considerando o texto o instrumento de comunicação
discursiva. Sua aparição como escritor se dá quando escreve voltado para o
fenômeno literário um trabalho intitulado “O Autor e o Personagem da Atividade
Estética”, que não foi publicado senão em 1979, porém no mesmo período surge seu
livro sobre Dostoievski, 1929. Foi com o encontro dessa obra, Crime e Castigo,
de Dostoievski, que Bakhtin desenvolveu o terceiro elemento importante de sua
teoria, a noção de polifonia. O trecho inicial do romance nos dá uma idéia
polifônica de Dostoievski:
Capítulo I. “Nos começos de julho, por um
tempo extremamente quente, saíra um rapaz de um cubículo alugado, na travessa de
S..., e, caminhando devagar, dirigia-se à ponte de K...
Discretamente,
evitou encontrar-se com a dona da casa na escada. O tugúrio em que vivia ficava
precisamente debaixo do telhado de uma alta casa de cinco andares e parecia mais
um armário do que um quarto. A mulher que lho alugara, com refeição completa,
vivia no andar logo abaixo, e por isso, quando o rapaz saía tinha de passar
fatalmente diante da porta da cozinha, quase sempre aberta de par em par sobre o
patamar. E todas as vezes que procedia assim sentia uma mórbida impressão de
covardia, que o envergonhava e fazia franzir o sobrolho. Estava zangado com a
dona da casa e tinha medo de encontrá-la.
E isto não porque fosse
covarde ou tímido, pelo contrário; simplesmente, havia algum tempo já se
encontrava num estado de excitação e enervamento parecido com o da hipocondria.
Estava a tal ponto apegado ao seu quarto e afastado de todos, que receava
encontrar-se com quem quer que fosse e não somente com a dona da casa.
A
pobreza deprimia-o; mas havia também já algum tempo que até isso deixara de
incomodá-lo. Abandonara por completo os seus trabalhos cotidianos e não queria
preocupar-se com eles. Na realidade, não temia a dona da casa, por muito que
pudesse tramar contra ele. Agora, ter de parar na escada, escutar todas as
tolices daquela mulher, estúpida até o absurdo, e que não lhe interessavam
absolutamente nada; todos aqueles disparates a respeito do pagamento, aquelas
ameaças e lamentações, e, ademais, ter de falar, desculpar-se, mentir, não,
preferia atirar-se como um gato pelas escadas abaixo e deixar-se cair ao
abandono, contanto que não visse ninguém. Além disso, dessa vez, o seu receio de
encontrar-se com a sua credora acabou por chocá-lo a ele próprio, assim que se
viu na rua:
´Por que, diabo, me preocupo eu desta maneira e sofro todas
estas inquietações por causa de uma bagatela?´, pensou, sorrindo estranhamente.
´Hum! Sim, é isso, está tudo ao alcance do homem e tudo lhe vem parar às mãos,
simplesmente, o medo... Isto é um axioma... É curioso: de que será que as
pessoas têm mais medo? O que mais temem é o primeiro caso, a primeira palavra...
Mas parece-me que já estou falando demais. Afinal, não faço mais nada senão
falar. Embora também se pudesse dizer que, se falo, é porque não faço nada. A
verdade é que durante este último mês deu-me a mania de falar, enquanto me deixo
ficar estendido ruminando no meu canto... sobre ninharias. Bem, e afinal, aonde
vou eu? Serei capaz disso? Será isso uma coisa séria? Não, de maneira alguma.
Divirto-me mas é à custa da minha imaginação, é uma brincadeira! É isso mesmo,
uma brincadeira!´
Na rua fazia um calor sufocante, ao qual se juntava a
aridez, os empurrões, a cal por todos os lados, os andaimes, os tijolos, o pó e
esse mal cheiro de verão, conhecido por todos os petersburgueses que não possuem
uma casa de campo”. DOTOIEVSKI, Fiodor Mikhailovitch, Crime e Castigo, tradução
de Natália Nunes. — São Paulo, Abril Cultural, 1982.
Quem está falando?
Essa é a grande tônica na abordagem de Bakhtin sobre os planos dos diálogos de
um discurso. Um texto normalmente é impregnado de vários elementos ideológicos
integrantes do processo comunicativo. Para Bakhtin, assim como para Vygotsky, o
valor histórico da linguagem leva à aquisição de conhecimento que faz do
indivíduo um ser social. Evidentemente, um ser social traz consigo sua visão de
mundo adquirida pela relação discursiva abstraída desde a infância, por meio dos
diálogos com a mãe, passando pelo período escolar, até sua fase mais
transcendental nas relações sócio-culturais. Essa mecânica faz do indivíduo um
ser que fala por si, pelo outro e por intermédio do outro, ou seja, um ser
polifônico, que discursa em planos dialógicos.
Nesse sentido, Bakhtin
fala sobre o monólogo, enquanto processo que inaugura um novo diálogo. Fala,
também, do anônimo, enquanto resultado do apagamento da voz do outro na “palavra
alheia” apropriada (esse artifício indica o movimento de mudança no processo de
diálogos expresso nos textos de Bakhtin). Para Bakhtin, a criança recebe na
consciência desde seu nome, vindo pelo discurso da mãe, até as idéias elaboradas
por discursos mais complexos. Tudo que chega à consciência da criança vem do
mundo exterior, carregado de entonação, de tonalidade, de emoção e de valoração.
Assim, a “consciência do homem desperta envolvida na consciência do outro”.
Há outro movimento nos argumentos de Bakhtin que atua na consciência
monologizada. Articulada em “palavras neutras”, que prescindem do eu e do outro,
ele se constitui como uma terceira pessoa, como um ele. Assim, para Bakhtin, as
ciências exatas e naturais seriam formas monológicas de conhecimento, em que
coloca o sujeito que tem a faculdade de conhecer diante de “uma coisa sem voz”.
Ele conclui que “coisa” e pessoa não se dão como substâncias absolutas, mas como
limites da relação do homem com o que lhe é externo. Já a noção de diálogo se
apresenta como uma implicação da noção de alteridade constitutiva que Bakhtin se
baseia sobre a relação entre autor e personagem. Só o outro dispõe do que ele
chama de “excedente de visão” e é essa a condição de possibilidade da
consciência de si próprio.
Finalmente, dessa condição de limitação
humana é possível pensar o diálogo enquanto relação de mútua determinação em que
o eu se constitui por meio do outro e como outro do outro. Assim, na relação
estética do romance, Bakhtin aponta que a relação autor-personagem se dá como
acontecimento estético a partir do momento em que o autor assume esse excedente
de visão, como uma posição que lhe permite construir a personagem como
totalidade. Para ele, o texto vincula também a questão da autoria. Uma dessas
formas surge da necessidade de distinguir a instância em que se representa da
instância do representado, distinção esta que faz do autor o “portador de um
princípio puramente representativo”. Por essa razão, Bakhtin volta o falar do
escritor para o autor, como “alguém que é capaz de trabalhar com a língua,
situando-se fora dela: alguém que possui o dom da fala indireta”. Isso ocorre
logo no início da obra de Dostoievski, conforme se observa no texto reproduzido
acima.
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