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Artigo desvolvido por Antônio Carlos Pinho e Ana
Lúcia Machado
Antes de ler esse artigo sugerimos a leitura do artigo anterior, História das Bibliotecas -
Introdução , que é uma preparação para a melhor compreensão do
conteúdo deste.
Biblioteca e sua origem
Neste capítulo tratamos da etimologia da palavra
biblioteca e os tipos de biblioteca. O sentido dado ao termo biblioteca variou
no decorrer do tempo, devido à mudança de função dela e ao tipo de material do
qual ela é depósito. Por conseguinte, torna-se necessário tratar dessa
conceituação, assim como distinguir os tipos e as espécies de biblioteca, que
também sofreram variação.
Continuamos com um breve relato da existência de
bibliotecas no curso histórico, apontando as principais bibliotecas da
Antiguidade e da Idade Média.
Etimologia, tipos e espécies de biblioteca
Buscamos o significado da palavra biblioteca em dicionários e
nas referências bibliográficas lidas para este estudo. No dicionário de Aurélio
(1986), biblioteca significa coleção pública ou privada de livros e documentos
congêneres, organizada para o estudo, leitura e consulta. Para este famoso
dicionarista, a palavra é originada do grego bibliothéke e chegou até nós pelo
latim bibliotheca.
Cúnha (1997) também confirma que a palavra biblioteca
em português se origina do latim, que, por sua vez, deriva dos radicais gregos
biblio e teca, cujos significados são, respectivamente, livro e coleção ou
depósito. Martins (idem: 71) resume, enfim, etimologicamente, a palavra como
depósito de livros.
O sentido contemporâneo da palavra, porém, faz
referência a qualquer compilação de dados registrados em muitas outras formas e
não só em livros. O termo pode designar microfilmes, revistas, gravações,
slides, fitas magnéticas e de vídeo, entre outros materiais. O material mais
recente é o livro eletrônico, ebook, criado por um intenso idealismo
democratizante de acesso à informação e à leitura (Bellei: 2002:30). Com o texto
eletrônico, a idéia de biblioteca amplia, sendo possível imaginá-la universal
(cf. Chartier: 1999).
A biblioteca, ou seu sentido, refere-se também à
grande variedade de coleções bibliográficas e aos diferentes fins e usuários. A
maioria das nações desenvolvidas dispõe de bibliotecas de vários tipos:
nacionais, universitárias, públicas, escolares e especializadas. Quase sempre,
estão interligadas nacionalmente e, por meio de associações profissionais e de
acordos estabelecidos, desenvolvem programas de cooperação e intercâmbio
extensivos a outros países. Alem dessas, existem as inúmeras particulares, que
se tornaram objeto de estudo histórico, devido ao grau de importância dado à
leitura e para o historiador tomar conhecimento sobre o que se lia em
determinada época.
Martins (Idem: 342) distingue sem grandes pretensões
duas espécies de biblioteca. As bibliotecas de conservação se referem às
nacionais e às especializadas por guardarem livros, manuscritos e outros
documentos raros e/ou acessíveis apenas a especialistas. As bibliotecas de
consumo são aquelas públicas, abertas a todos os leitores e destinadas à leitura
comum.
Ressaltamos, no entanto, que durante a Antiguidade e o período
medieval as bibliotecas eram destituídas de caráter público. Martins relaciona o
nome biblioteca com o seu caráter restrito nesses períodos históricos:
A
biblioteca foi assim, desde os seus primeiros dias até aos fins da Idade Média,
o que o seu nome indica etimologicamente, isto é, um depósito de livros, e mais
o lugar onde se esconde o livro do que o lugar de onde se procura fazê-lo
circular ou perpetuá-lo. A própria disposição arquitetônica dos edifícios
demonstra-o melhor do que qualquer outro índice: na grande biblioteca de Nínive,
o depósito de livros não tem saída para o exterior – a sua única porta parece
dar, ao contrário, para o interior do edifício, para o lugar onde viviam ou onde
permaneciam os grandes sacerdotes. Da mesma forma, as bibliotecas medievais se
situam no interior dos conventos, lugares dificilmente acessíveis ao profano, ao
leitor comum. (p. 72)
Essas bibliotecas preservavam manuscritos de papiros ou
pergaminhos, produzidos volume por volume em um trabalho artesanal e acessíveis
apenas às bibliotecas e as poucas coleções particulares de reis e de outras
autoridades. Apenas com a difusão do papel no século XIV e o surgimento de
tipografias, que possibilitaram a fabricação em série, as bibliotecas passaram a
ter caráter público e leigo.
A partir desse momento, a biblioteca sofre
um processo gradativo de transformação, marcado pelos quatro caracteres
apontados por Martins e Milanesi (1998): laicização, democratização,
especialização e socialização. Acrescentamos, atualmente, o caráter universal,
buscado pelos navegadores virtuais. Recorremos a Chartier (1999) que esclarece
que essa busca é um resgate do mito de Alexandria, isto é, a existência de uma
biblioteca ideal.
Fechamos esse tópico, verificando que o termo biblioteca
ultrapassa a sua etimologia e causa dificuldade na sua conceituação, pois o
termo abrange tipos, objetivos e materiais diferentes e variados. A biblioteca,
enfim, é um processo-produto da História.
Biblioteca no curso da História
Este tópico sobre o curso histórico da biblioteca deve ao
estudioso Martins (Idem). Esse autor aponta as principais bibliotecas antigas e
medievais e a extensão das segundas em relação às primeiras, na organização e no
caráter monástico, diferenciando-se apenas no material resguardado.
Na
Antiguidade, o material sobre o qual se concretizava a escrita era o papiro,
cujo rolo podia chegar até 18 metros, e o pergaminho. Os rolos desses materiais
eram organizados em armários com divisórias e arrumados uns ao lado dos outros,
com etiquetas visíveis indicadoras dos títulos.
No século IV d. C.
aparaceu o codex, ou seja, o uso das duas faces do pergaminho, em formato
moderno do livro. Esse novo aspecto exigiu novos móveis, sobre os quais os
livros ficavam deitados e às vezes acorrentados.
Em relação às
bibliotecas, a mais antiga foi de Alexandria, que reunia a maior coleção de
manuscritos do mundo antigo, cerca de 500.000 volumes. Ela foi fundada por
Ptolomeu I Sóter, rei do Egito, e os eruditos encarregados da biblioteca eram
considerados os homens mais capazes de Alexandria na época, como Zenódoto de
Éfeso e o poeta Calímaco, que fez o primeiro catálogo geral dos livros.
Segundo a lenda, a biblioteca foi destruída pelo fogo em três ocasiões:
em 272 d.C., por ordem do imperador romano Aureliano; em 392, quando o imperador
Teodósio I arrasou-a, juntamente com outros edifícios pagãos, e em 640 pelos
mulçumanos, sob a chefia do califa Omar I.
Perto do século I a. C., os
romanos mais abastados começaram a criar bibliotecas particulares com obras
gregas e latinas. A crescente procura por livros deu origem ao comércio de
copistas, ao aparecimento de livrarias e ao estabelecimento de bibliotecas
públicas, que surgiram em Roma, próximo ao século II da nossa era.
Durante os séculos VIII e IX, muitos textos científicos e matemáticos
foram copiados e conservados por mulçumanos e cristãos. Valiosa foi a
contribuição da Escola de Tradutores de Toledo, criada por Afonso X, o Sábio.
Na Europa Ocidental, a literatura foi preservada graças, sobretudo, à
ação das bibliotecas dos mosteiros, como o de San Milan de la Cogolla e de
Ripoll, na Espanha, e o de Fulda, na Alemanha. Cada uma possuía uma sala
denominada scriptorium, oficina onde os monges realizavam cópias manuscritas de
obras clássicas e religiosas.
As bibliotecas antigas e medievais eram,
enfim, lugares contrários à idéia de laicização e de democracia. No entanto, não
podemos negar que elas preservaram, guardando e copiando manuscritos, hoje tão
fundamentais para o nosso entendimento histórico.
Leia também o
artigo "As
bibliotecas no Brasil" que é uma continuação desse artigo
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