::. História das Bibliotecas - Origens
Antônio Carlos Pinho | 07/11/2003

Artigo desvolvido por Antônio Carlos Pinho e Ana Lúcia Machado

Antes de ler esse artigo sugerimos a leitura do artigo anterior, História das Bibliotecas - Introdução , que é uma preparação para a melhor compreensão do conteúdo deste.

Biblioteca e sua origem
Neste capítulo tratamos da etimologia da palavra biblioteca e os tipos de biblioteca. O sentido dado ao termo biblioteca variou no decorrer do tempo, devido à mudança de função dela e ao tipo de material do qual ela é depósito. Por conseguinte, torna-se necessário tratar dessa conceituação, assim como distinguir os tipos e as espécies de biblioteca, que também sofreram variação.
Continuamos com um breve relato da existência de bibliotecas no curso histórico, apontando as principais bibliotecas da Antiguidade e da Idade Média.

Etimologia, tipos e espécies de biblioteca

Buscamos o significado da palavra biblioteca em dicionários e nas referências bibliográficas lidas para este estudo. No dicionário de Aurélio (1986), biblioteca significa coleção pública ou privada de livros e documentos congêneres, organizada para o estudo, leitura e consulta. Para este famoso dicionarista, a palavra é originada do grego bibliothéke e chegou até nós pelo latim bibliotheca.

Cúnha (1997) também confirma que a palavra biblioteca em português se origina do latim, que, por sua vez, deriva dos radicais gregos biblio e teca, cujos significados são, respectivamente, livro e coleção ou depósito. Martins (idem: 71) resume, enfim, etimologicamente, a palavra como depósito de livros.

O sentido contemporâneo da palavra, porém, faz referência a qualquer compilação de dados registrados em muitas outras formas e não só em livros. O termo pode designar microfilmes, revistas, gravações, slides, fitas magnéticas e de vídeo, entre outros materiais. O material mais recente é o livro eletrônico, ebook, criado por um intenso idealismo democratizante de acesso à informação e à leitura (Bellei: 2002:30). Com o texto eletrônico, a idéia de biblioteca amplia, sendo possível imaginá-la universal (cf. Chartier: 1999).

A biblioteca, ou seu sentido, refere-se também à grande variedade de coleções bibliográficas e aos diferentes fins e usuários. A maioria das nações desenvolvidas dispõe de bibliotecas de vários tipos: nacionais, universitárias, públicas, escolares e especializadas. Quase sempre, estão interligadas nacionalmente e, por meio de associações profissionais e de acordos estabelecidos, desenvolvem programas de cooperação e intercâmbio extensivos a outros países. Alem dessas, existem as inúmeras particulares, que se tornaram objeto de estudo histórico, devido ao grau de importância dado à leitura e para o historiador tomar conhecimento sobre o que se lia em determinada época.

Martins (Idem: 342) distingue sem grandes pretensões duas espécies de biblioteca. As bibliotecas de conservação se referem às nacionais e às especializadas por guardarem livros, manuscritos e outros documentos raros e/ou acessíveis apenas a especialistas. As bibliotecas de consumo são aquelas públicas, abertas a todos os leitores e destinadas à leitura comum.
Ressaltamos, no entanto, que durante a Antiguidade e o período medieval as bibliotecas eram destituídas de caráter público. Martins relaciona o nome biblioteca com o seu caráter restrito nesses períodos históricos:

A biblioteca foi assim, desde os seus primeiros dias até aos fins da Idade Média, o que o seu nome indica etimologicamente, isto é, um depósito de livros, e mais o lugar onde se esconde o livro do que o lugar de onde se procura fazê-lo circular ou perpetuá-lo. A própria disposição arquitetônica dos edifícios demonstra-o melhor do que qualquer outro índice: na grande biblioteca de Nínive, o depósito de livros não tem saída para o exterior – a sua única porta parece dar, ao contrário, para o interior do edifício, para o lugar onde viviam ou onde permaneciam os grandes sacerdotes. Da mesma forma, as bibliotecas medievais se situam no interior dos conventos, lugares dificilmente acessíveis ao profano, ao leitor comum. (p. 72)

Essas bibliotecas preservavam manuscritos de papiros ou pergaminhos, produzidos volume por volume em um trabalho artesanal e acessíveis apenas às bibliotecas e as poucas coleções particulares de reis e de outras autoridades. Apenas com a difusão do papel no século XIV e o surgimento de tipografias, que possibilitaram a fabricação em série, as bibliotecas passaram a ter caráter público e leigo.

A partir desse momento, a biblioteca sofre um processo gradativo de transformação, marcado pelos quatro caracteres apontados por Martins e Milanesi (1998): laicização, democratização, especialização e socialização. Acrescentamos, atualmente, o caráter universal, buscado pelos navegadores virtuais. Recorremos a Chartier (1999) que esclarece que essa busca é um resgate do mito de Alexandria, isto é, a existência de uma biblioteca ideal.
Fechamos esse tópico, verificando que o termo biblioteca ultrapassa a sua etimologia e causa dificuldade na sua conceituação, pois o termo abrange tipos, objetivos e materiais diferentes e variados. A biblioteca, enfim, é um processo-produto da História.

Biblioteca no curso da História

Este tópico sobre o curso histórico da biblioteca deve ao estudioso Martins (Idem). Esse autor aponta as principais bibliotecas antigas e medievais e a extensão das segundas em relação às primeiras, na organização e no caráter monástico, diferenciando-se apenas no material resguardado.

Na Antiguidade, o material sobre o qual se concretizava a escrita era o papiro, cujo rolo podia chegar até 18 metros, e o pergaminho. Os rolos desses materiais eram organizados em armários com divisórias e arrumados uns ao lado dos outros, com etiquetas visíveis indicadoras dos títulos.

No século IV d. C. aparaceu o codex, ou seja, o uso das duas faces do pergaminho, em formato moderno do livro. Esse novo aspecto exigiu novos móveis, sobre os quais os livros ficavam deitados e às vezes acorrentados.

Em relação às bibliotecas, a mais antiga foi de Alexandria, que reunia a maior coleção de manuscritos do mundo antigo, cerca de 500.000 volumes. Ela foi fundada por Ptolomeu I Sóter, rei do Egito, e os eruditos encarregados da biblioteca eram considerados os homens mais capazes de Alexandria na época, como Zenódoto de Éfeso e o poeta Calímaco, que fez o primeiro catálogo geral dos livros.

Segundo a lenda, a biblioteca foi destruída pelo fogo em três ocasiões: em 272 d.C., por ordem do imperador romano Aureliano; em 392, quando o imperador Teodósio I arrasou-a, juntamente com outros edifícios pagãos, e em 640 pelos mulçumanos, sob a chefia do califa Omar I.

Perto do século I a. C., os romanos mais abastados começaram a criar bibliotecas particulares com obras gregas e latinas. A crescente procura por livros deu origem ao comércio de copistas, ao aparecimento de livrarias e ao estabelecimento de bibliotecas públicas, que surgiram em Roma, próximo ao século II da nossa era.

Durante os séculos VIII e IX, muitos textos científicos e matemáticos foram copiados e conservados por mulçumanos e cristãos. Valiosa foi a contribuição da Escola de Tradutores de Toledo, criada por Afonso X, o Sábio.

Na Europa Ocidental, a literatura foi preservada graças, sobretudo, à ação das bibliotecas dos mosteiros, como o de San Milan de la Cogolla e de Ripoll, na Espanha, e o de Fulda, na Alemanha. Cada uma possuía uma sala denominada scriptorium, oficina onde os monges realizavam cópias manuscritas de obras clássicas e religiosas.

As bibliotecas antigas e medievais eram, enfim, lugares contrários à idéia de laicização e de democracia. No entanto, não podemos negar que elas preservaram, guardando e copiando manuscritos, hoje tão fundamentais para o nosso entendimento histórico.

Leia também o artigo "As bibliotecas no Brasil" que é uma continuação desse artigo


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