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“O dia-a-dia não precisa ser extraordinário para ser
interessante. O cotidiano é riquíssimo de assuntos e acontecências de toda
espécie – fora e dentro da gente. É só ficar com as antenas ligadas – as antenas
da curiosidade dos sentidos e dos sentimentos, de senso critico, de senso
poético, sem esquecer do importantíssimo e indispensável senso de humor”
Tatiana Belinsky
Você não consegue ler o livro de Contos “Idéias Noturnas” (Editora
Novo Século, SP, 2009, 120 páginas, Série Novos Talentos da Literatura
Brasileira) de uma só levada, a um só termo. Você é inesperadamente surpreendido
na pegada de lê-lo e saber que tem que respirar a leitura, de alguma forma por
si mesmo e de per-si, pontuando-a. Parar. Stop. Voltar a tomar pé e pulso no
verbo ler. Reler. Porque cada vez que sondando antevê, “pensa” que é, que sonda
o arremedo narrativo do devir, o tema e o andamento, mas tudo o que sentia
parecer na verdade não é. Contos incomuns, algo (raros) estranhos, por assim
dizer como elogio. Tiram você da lerdeza do ler puro e simples para uma sentição
do que lê e admira. Grandeza dos Dias? Dos escritos também.
Os contos de Eduardo Sabino são claramente (literalmente)
diferenciados. Escreve com uma boniteza que reveste a surpresa da contação em
agradável prazer de leitura. Já ganhador de Concurso, participante de
antologias, colaborando com veículos de comunicação, inclusive sites, é também
editor da revista eletrônica “Caosletras.blogspot.com”. Nasceu em 1986, e, sendo
tão novo e tão bom, denso, contundente que seja, é encanto gratificante sabê-lo
e conhecer desenhos da escrita dele nesse novo livro de contos.
Otimamente bem Prefaciado por Rinaldo de Fernandes, que dele
aponta com conhecimento de causa: “O protagonista do conto (Purgatório, pg 25)
está entre o sonho e a realidade de um cotidiano desbotado(...). A vida eterna
não nos resolve a angústia de viver (Eternas Angústias de um Imortal, pg
29)(...). Os contos de Eduardo Sabino, irônicos e intensos, com personagens
angustiados, alguns à borda do desespero, não raro flagrados em situação de
pobreza(...)”. Pois é, ironias, seres (quase-seres/sub-seres), animais,
máscaras, monstros, vírus, loucuras... baratas. Doce Lar? Não há nexo na vida
real.
Purgatório é sim, um conto sobre um “ser” urbanóide no
entre-subsolo de um elevador; sobe, desce, lamurias, contemplações, martírios;
reinando. O ser que incabe em si. Desconexões. Vazios. Impertinências (e um
olhar ferino) do escritor retratando o ser de si no que vê, sente, repagina; em
páginas de restos até porventura rotos que assim sejam. O olhar aproximando da
trajetória alheia. “Todos abençoados porque estão vivos. Abençoados porque
morrerão” (pg 31). Santo Deus!
Abismo (pg 33) uma das melhores criações do livro. Linda ficção. O
abismo é viver; que é ser feliz, que é (talvez?) a própria estupidez de tentar
ser Ser... A retina do escritor reformatando aspectos invisíveis, risíveis,
verossímeis... criados, imaginários; resgatados também da rudeza dos dias...
Sim, diz Eduardo Sabino, é preciso estar muito próximo para conversar a língua
do olhar. (Céu Aberto, pg 49). Um roteador de sombras, como um
eu-endereço-de-mim, em mim e no outro. “La Sombra”, belo conto, pg. 53,
especifica o norte (mote?), o estilo: “La Sombra, a essas alturas um vulto com
olhos amarelos e fiapos de cabelo, sugeriu que poderia haver uma esperança se os
outros enxergassem melhor o que achavam tratar de meros contornos desprovidos de
luz(...).
Eduardo Sabino joga luzes letrais em contornos que redescobre,
pincela, amalgamado capta nuances, enlivra desafetos afins, defeitos de
fabricação do humanus. De heróis a anônimos, povoando a criação (O Herói e o
Escuro, pg 57) a situações-conflitos, rostos e trevas, ideias verbais (aqui
noturnizadas). Seres?. Retratando tristezas que nascem e morrem a cada dia. What
a Wonderful World?
Banzo (pg 75) emociona, cala fundo. Dói no literal. O melhor dos
trabalhos. E por aí vai, O Inquilino, O Jardim Encantado, e outros tantos do
mesmo gabarito. Eduardo Sabino relata aspectos (de condições humanas) entre
espectros sub-existenciais até. De se ler com prazer, mais, entrar na alma da
contação, satisfazer-se, sendo a leitura de “Idéias Noturnas” um imenso (muito)
prazer. É o autor com talento dando voz aos desvalidos, aos tantos
instantes-trevas da vida, inclusive a fragmentos de vidas retorcidas. Senti-las
é isso. Escrever sobre elas, dando peso e fermento; purgações, coisa de quem
está fazendo muito bem o que se propõe. In/purezas no pântano da condição
humana? O criador se encontra no(a) self?
Nesses tenebrosos dias em que ando muito triste sozinho,
escrevendo na pele do espírito a dor de um momento difícil, nervos frágeis à
flor da pele, a leitura circunstancial do livro colocou um (algum) certo sentir
novo (e revisitado no íntimo) em mim, como se tudo fosse mesmo só isso, cara
pálida, nascer, sobreviver, morrer, no durante contorcer-se com a nossa dor, a
dor dos outros, e, ainda assim e por isso mesmo captar a grandeza dos dias. Será
o impossível? Tudo a Ser.
Entrar no mundo criacional de Eduardo Sabino é ter a sensação de
que se lê uma história que nasceu por si mesma, em si mesma, como referendou
Julio Cortazar. E assim Eduardo Sabino acertou em cheio, acertou a mão. É do
ramo e muito bem conhece do oficio e da linguagem de. Contos para se ler com o
olhar, afinando-se na riqueza de quem sabe dar vazão a querelas talvez
corriqueiras que parecem sair da esquina do olhar; de um beiço de vida, num
clarear de tardes e pertencimentos de seres que também são a nossa cara, pois a
existêncialização não é nem uma herança e nem uma evolução apenas, mas, um certo
modo de nos envolvermos com o sentido social-comunitário de nos fazermos em cada
natureza de criadores e criaturas, feito espécies assim de “antenas”
(parabolizadas) de nosso tempo, registrando tudo, doa a quem doer, custe o que
custar. E dói muito mais em nós, sentidores, entre prismas e colchas de retalhos
com sabenças sensíveis de foro íntimo. Goethe diz que “qualquer coisa que formos
capaz de fazermos ou que sonhamos que somos capazes, devemos começar a fazer,
pois a coragem traz consigo gênio, poder e magia”.
“Idéias Noturnas” é a magnitude de tudo isso e um rebite a mais.
Sintam-se humanóides. Bem-vindos ao mundo literário de Eduardo Sabino e suas
fragrâncias de dias cheio de ideias literariamente clarificadas.
-0-
Silas Correa Leite – Santa Itararé das Artes, SP, Brasil
E-mail: poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net
Autor de CAMPO DE TRIGO COM CORVOS, Contos, Editora Design, SC
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