|
O caos da vida me hipnotiza de uma maneira branda e sincera, parece que toda essa confusão generalizada possui sentido implícito e acaba, de uma certa forma, tendo uma harmonia que não pode ser explicada.
Não tenho idéia de que horas são agora, aboli o relógio de pulso. Na verdade aboli qualquer tipo de objeto que tenha que ser colocado em mim. Sou um neurótico inconsciente para isso, quando durmo arranco qualquer coisa que estiver no meu corpo: correntes, pulseiras, piercings e até aquelas fitinhas do senhor do Bonfim. Nem o lençol da minha cama escapa, tentei aqueles com elástico, todos partiram. Eu nunca entendi como essas coisas acontecem, só percebo depois quando acho as coisas destroçadas ou minha pele ensangüentada.
Não quero falar sobre mim, na verdade estou aqui no metrô observando as pessoas. Pessoas para lá, pessoas para cá. De repente me lembrei do poema do Drummond, pra que tanta perna, meu Deus? Sentei e comecei a ler um livro, passa uma página, outra, não consigo me concentrar.
Começo a observar as pessoas novamente. Um rapaz de uns trinta anos esbarrou numa mulher, os dois vieram de lados diferentes e não tinham se visto. Ele pede desculpa, ela também. Eles se olham, se reconhecem, risadas e abraço. Até hoje eu só tinha visto essas coisas acontecerem nos filmes e nos livros. Eu nunca esbarrei em alguém que conhecia no ônibus, metrô ou qualquer lugar público. Sim, eu já encontrei conhecidos, mas nunca esbarrei ao acaso, essas coisas só deveriam acontecer na ficção, qual é a chance disso acontecer de verdade? De longe acompanhei o casal amigo que desapareceu na multidão. Pensei em contar essa história para alguém, mas qual a graça? Coisas acontecem o tempo todo, e acho que essa nem é a mais interessante.
Desço do metrô e sigo para o ponto de ônibus, no meio do caminho desvio para uma rua movimentada. É quase certo que irei encontrar o rapaz com o cachorro. Você deve estar se perguntando: quem é o rapaz com o cachorro? Eu também me perguntei isso várias vezes, mesmo o conhecendo pessoalmente e o vendo quase todos os dias. É um cara, por volta dos seus 25 anos, que todos os dias está na frente de uma discoteca com uma camiseta dos Ramones, um boné vermelho e seu cachorro assustador. Você deve estar pensando que é algum pit-bull ou monstro similar, mas não, é um poodle. Para piorar o cachorro está tingido de rosa e usa sapatinhos para proteger as patas. Antes eu ficava ponderando se o cara era veado, louco ou apenas queria chamar a atenção, hoje não penso em mais nada. Afinal de contas, essas coisas às vezes acontecem. Coisas acontecem, acontecem.
Fui para casa.
|