::. E veio a brisa ao encontro do rosto
Ítalo Marquez | 03/05/2005

E veio a brisa ao encontro do rosto, e veio também o sentido de tudo. Sentado num banco com pensamentos simples e despretensiosos, olhava incansavelmente para a margem do lago que lá havia. Um instante qualquer brilhou. Atribuiu a centelha ao atrito do toque do destino, aleatório e totalmente parcial. Não pensou, do sereno passou ao passível. Não se diz ao destino o que se faz, nem se pensa nele. Aceitou tudo como um cordeirinho que passeia numa manhã quente com a grama ainda úmida para se comer. Abaixou, abriu a boca molhada com dentes fortes, um grande tufo então foi arrancado da terra sem que essa sentisse dor ou mesmo percebesse o que dela foi tirado. O gosto da grama é doce por ser fruto de pilhagem. Pilhagem natural como todas as coisas têm que ser, as coisas que não se crêem, passíveis e impensadas.

Acordou de manhã e sentiu um estranho gosto de terra em sua boca, lembrou que havia tomado quase uma garrafa de vinho com sua namorada. Aquela lembrança súbita o fez virar rapidamente. Lá estava ela ao seu lado, dormindo um sono impossível de ser descrito, um sono angelical, sereno e profundo. Podia jurar que naquela face inerte havia uma ponta de sorriso, desses que damos quando a risada em alguns instantes será iminente.

Havia uma montanha, era alta e parecia ser toda cravada de pedras médias, pontiagudas, difíceis de serem vencidas. Pensou em dar a volta e preservar sua energia, salvar sua segurança dos obstáculos que estavam ali. A montanha era grande, intimidava e amedrontava. Ele parou de pensar, foi então que percebeu que não havia outro caminho senão o de subir em frente.

Pulou da cama como um gato em silêncio, sentiu o frio flertar com sua pele recém saída das cobertas e deu um pequeno gemido. A luz da manhã invadia o quarto pelos pequenos buracos daquelas antigas janelas de alumínio. Foi até o armário para pegar um casaco e tateou a porta até achar a maçaneta. Abriu, os olhos agora estavam acostumados a pouca luz e já reconheciam suas roupas. Ia pegar o primeiro que havia na frente, mas algo estranho o fez sair do semi-sono e olhar com atenção: não era um dos seus. Ela havia colocado parte de suas roupas ali, em seu armário. Reconheceria aquele casaquinho a centenas de metros de distância, era dela, daquela doçura que estava ali do lado dormindo em sua cama. A sensação de achar algo dela ali, em seu armário, em sua casa, no seu refúgio mais secreto, era estranha, única e tão nova que não soube o que pensar sobre aquilo.

Havia um lago e havia um peixe. O peixe era consciente de sua existência e vivia tranqüilamente o que a ele foi escolhido: uma vida de peixe. O peixe nunca olhou para fora do lago, não era coisa de peixe ficar olhando para um lugar que não era de peixe. Um dia, quando ele estava nadando tranqüilamente entre os galhos caídos no fundo, sentiu algo quente por cima de seu corpo gelado, uma luz intensa e brilhante invadiu e iluminou tudo que havia no lago. O peixe então, num repente de confusão, virou-se e olhou para cima, a luz...

Pensava do banheiro como tudo aconteceu. Aquela sensação ainda percorria o seu corpo, não sabia dizer se era bom, se era ruim. Só percebeu o prazer que estava sentindo quando se olhou no espelho, o mesmo espelho que por muito tempo o indagou, o insultou com escárnios das coisas que ele fez, ou não fez. Agora o espelho estava calado, pois em seu rosto refletido havia um sorriso, um sorriso de vingança gelado e puro que silenciaria o próprio inferno. Aquele sorriso era dele e nada naquele momento poderia roubá-lo, agora nem mesmo ele, nos seus delírios e usando aquele espelho como o juiz diário de seus atos, poderia intimidar a si mesmo de alguma maneira. E pela primeira vez em muito tempo o espelho refletiu sem significar nada.

Por tempos um louco circulava pela região, gritava coisas desconexas para as pessoas na rua, chorava e ria durante a noite. Um dia o louco deu um uivo que acordou o bairro inteiro, calou-se por um instante e depois gritou com força suficiente para romper suas cordas vocais: “a felicidade é uma forma de se libertar”. Uns dizem que correu até desaparecer, há relatos de o terem visto pela vizinhança. Na verdade, ninguém sabe o que aconteceu.

Lavou o rosto e voltava para a cama quando o frio, que havia desaparecido por alguns instantes, flertava novamente, só que agora com todo o seu corpo. Começou a pensar novamente na história do casaco quando sentiu uma mão puxar sua bermuda. “Amor, volta pra cama”.

Deitou e não pensou mais em nada.


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