Dizem que os gatos são atraídos pela luz dos faróis quando se está dirigindo
durante a noite. Você está lá, sossegado, e de repente o bicho pula em seu carro
e sai com os ossos moídos, esmagados pelo eixo, rodas e onde mais por azar tiver
se esborrachado. Sobra você com a consciência pesada, um pára-choque amassado e
manchas de sangue por todos os lados. Eu mesmo já matei dois gatos assim. Não
imagino porque os gatos fazem isso, talvez seja por algum impulso hipnótico, ou
algo relacionado com o nascimento, quando eles saem do útero felino e vêem pela
primeira vez a luz do dia. Pesquisei essa curiosa atitude com relação aos faróis
dos carros, mas não achei nada científico. Tudo bem, eu sei que os cientistas
perdem tempo com todo o tipo de experimento inútil que um dia vai acabar
servindo para alguma coisa (ou não), mas achar que eles gostariam de saber por
que os gatos se tornam suicidas profissionais ao avistarem uma luz de farol é
demais.
A verdade é que provavelmente nunca saberei porque os gatos fazem
isso, mas não me importo muito, de hoje em diante gatos pulam nos faróis e
ponto, não preciso de uma explicação para esse fenômeno.
O mais engraçado de
escrever sobre isso é que nem gosto de gatos, nunca gostei. Acho que é um bicho
interesseiro que só quer saber de receber carinho e de usar a sua casa. E não me
venha com o papo de que são bichos limpos, independentes e tudo o mais. Não me
importo, prefiro o velho e melhor amigo do homem, que é dependente, mas fiel até
a morte. Não vou nem começar a falar sobre as vantagens de um cachorro com
relação ao gato. Sei que é tudo uma questão de preferência, adoro um cachorro
bobão que fica correndo atrás do graveto que você joga até não ter mais forças
para ficar de pé. Os cachorros realmente tocam o meu coração.
Lembro de uma
vez em que eu voltava do interior com o meu irmão. Era feriado, mas nós tínhamos
que trabalhar, o dia estava ótimo e a estrada tranqüila. Após parar para tomar
um sorvete voltamos à estrada.
Agora pare e imagine a cena: vinha, mais ou
menos quinhentos metros a nossa frente, uma carreta. Do meio do nada surgiu um
cachorro que correu para o meio da pista um pouco à frente. O caminhoneiro ainda
tentou frear, mas a carreta começou a deslizar lateralmente. O cachorro ficou
assustado e paralisado no meio da pista, para que a carreta não tombasse o
caminhoneiro soltou os freios. Resultado: a roda traseira, dessas duplas,
enormes, acertou o cachorro em cheio. O impacto foi tão forte que o cachorro foi
partido em dois, um pedaço subiu quase vinte metros de altura, e o outro ficou
rolando no meio de estrada. Os pingos de sangue molharam todos os carros que
vinham atrás, inclusive o nosso.
Meu irmão, por quase cinco minutos, não
disse nada. Aquela cena foi tão surreal e inesperada que nem conseguíamos falar
um com o outro. Eu quebrei o gelo e perguntei, inocentemente, se ele tinha visto
aquilo. Ele, sem nem olhar para mim, apenas respondeu ainda mais inocentemente:
sim.
Aquilo arrasou o nosso feriado. Lembro que depois do trabalho, quando
voltei para casa e deitei na cama para dormir, lembrava dos olhos tristes do
pequeno cachorro antes de ser despedaçado por um par de pneus. Ficava pensando
se ele teria sentido dor ou não, se havia um céu para os cachorros, se eles
reencarnariam, essas coisas que ficamos fantasiando quando vemos algo que nos
impressiona.
A verdade é que essa história é irrelevante. Só quis ilustrar
que a morte de um gato não tem sentido para mim, mesmo que eu seja,
involuntariamente, o causador. E que um cachorro, morto num acidente que não me
envolvia diretamente, me toca profundamente.
Não quero dizer que sou a favor
da morte dos gatos, juro que senti uma pena enorme quando atropelei os
pequeninos, mas também confesso que não pensei neles antes de dormir.
Também
sou contra o uso de sua carne nos churrascos de esquina, mesmo após escutar de
alguns amigos confiáveis que a carne de gato é incomparavelmente mais gostosa
que a de vaca. Talvez eu experimente um dia, mas continuo sendo contra. Os
cachorros têm a vantagem de não serem caçados na cidade para esse fim, mesmo
estando em abundancia pelas ruas da cidade. Vou pesquisar sobre isso.
E
pensar que comecei a escrever esse texto só para dizer que prefiro um cachorro.
Vou comprar um. Qual? Isso fica para outra vez.
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