::. A folha em branco e o cursor piscando
Ítalo Marquez | 23/06/2005

Acho que todo mundo em algum momento já pegou a folha em branco, ou ligou o computador e abriu o seu programa de texto, e pronto: todas aquelas idéias que estavam em sua cabeça desapareceram como que por encanto. A folha fica lá, como diria um amigo meu, numa branca solidão, ou o cursor piscando como se estivesse zombando de você.
Nesses momentos eu paro e tento me concentrar um pouco. Mentalizo que a folha e a escrita são algo natural, um complemento, eles se querem e precisam entrar numa harmonia cósmica pela qual eu sou o canal.
Escrevo as primeiras palavras, desenvolvo a idéia e paro. A mente continua vazia ou com pensamentos desconexos e idéias pelo meio, sem começo e fim.
Um chá, um chá é o que preciso para liberar minhas idéias. Hidratar o corpo é extremamente importante, li em algum lugar. Uma desidratação distraída pode causar lentidão mental e desconexão de idéias. Vou me hidratar.
Faço o chá já pensando nas coisas que posso escrever. Vêm-me então o Jorge, a Renata, o Marcos, o Peixeirão e todos os personagens que vivem em minha cabeça. Estamos todos lá, na cozinha, preparando algum chá de frutas, flores ou ervas. Logo todos eles estarão em tramas complexas, histórias curtas e intensas como os contos borgianos.
De volta à mesa, sento e coloco alguma música instrumental para ajudar a me concentrar e em instantes a caneca de chá está no fim.
Ótimo, de volta ao misticismo, sou o canal metafísico que irá completar a escrita no papel, começo a escrever alguma coisa sobre um cachorro raivoso que, no ápice de sua doença e loucura, ataca um casal apaixonado que se encontrava às escondidas de suas famílias que são inimigas históricas. O rapaz tem apenas uma calça rasgada, mas a moça é mordida mortalmente.
Paro, leio as poucas linhas que escrevi e não acredito. Nem mesmo numa aula de redação para o primário seria possível ensinar tamanho clichê. Seleciono tudo com apenas alguns comandos e apago aquele lixo intelectual.
É hora de mudar de tática. Levando e vou até a janela olhar o trânsito passar. Passa um pouco das cinco, há um ponto de ônibus em frente a minha casa, está cheio. Logo penso no poema do Drummond, “pra que tanta perna, meu Deus?”. É incrível, sempre que eu vejo uma aglomeração de pessoas lembro desse poema.
Mas eu não sou o Drummond e logo paro com as divagações subjetivas e volto a observar as pessoas que estão no ponto. Cada rosto ali se expressava de uma maneira particular, as caras sérias, os sorrisos discretos, a velha gorda com uma gargalhada escandalosa se apóia em um senhor mirrado, e quase o faz cair quando faz isso. Tento não pensar na exatidão dos versos do Carlinhos e me entretenho passando os olhos novamente em todos. Um cachorro de rua se aproxima das pessoas com o rabo abanando insistentemente, pára perto um casal. De repente seu rabo também pára, sua expressão passa de um cachorro amigo de rua para a de cão de caça quando vê a presa. Serão as linhas que apaguei proféticas e eu não tinha consciência da minha vidência enrustida? Fico esperando a mordida espumante do cão enlouquecido começar a dilacerar aquele pobre casal. O cachorro olha, o rapaz atira um pedaço de pão que estava em suas mãos e ele volta a abanar rabo e ficar com cara de amigo.
Agora além de escritor com falta de inspiração também descubro que não herdei os dotes sensitivos da minha querida avó de Pernambuco.
As pessoas começam a diminuir no ponto de ônibus e eu resolvo voltar para a minha mesa de trabalho. O cursor parece agora piscar mais rapidamente, como se zombasse das minhas tentativas infantis de vencer a falta de inspiração e pichar aquele branco que o pertence. Começo a sentir uma raiva inexplicável por aquele cursor. Minimizo com fúria as janelas do meu editor de texto e agora dou uma risada cínica, daqueles que vencem o mais fraco com a mão de ferro de um poder autoritário. Pisca agora, cursor, pisca.
Após alguns segundos de cólera contra o meu editor de texto percebo o quão ridículo eu estava sendo. Como eu, que sempre critiquei as pessoas que ficam com raiva de objetos inanimados, estou agora de birra com um cursor piscando?
Volto o meu editor de texto na tela do computador. Agora ele parece piscar mais devagar, estará arrependido da zombaria anterior? Não, paro novamente com os pensamentos absurdos e penso como posso desprender todas as idéias que tive durante a semana para os contos que vou publicar.
Lembrei! Na minha geladeira eu tenho uma catuaba mental, a fonte de inspiração de tantos poetas e escritores. Uma garrafa de vinho pela metade. Não me dou ao trabalho nem mesmo de buscar uma taça no armário, pego um copo qualquer e encho até a boca.
Já no micro e no segundo copo vejo o cursor piscar de uma maneira suave, um pouco embaçada. É hora de mudar a cor desse texto, de esparramar as minhas idéias, de tecer as palavras como se fossem linha de lã, como diria aquele escritor? Quem mesmo? Bom, algum deles, lembro bem das palavras: “O fato central da minha vida foram as palavras, e a possibilidade de tecê-las em poesia”. E eu vou tecendo, tecendo e tecendo. Tecendo. Tecendo? Não sei nem mesmo onde está a linha...
Bom, é isso. Até mesmo o melhor jogador tem que admitir a derrota em algum momento. Hoje não é o meu dia, lembrei do cachorro da minha avó e dos versos do Drummond. Agora é hora de desistir. Confesso que a pior parte e olhar esse cursor piscando novamente, como se dissesse, sorrindo: eu te avisei.


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