::. Asfixia ou Paralisia
Ítalo Marquez | 02/02/2006

Asfixia ou paralisia.
Não sei nem mesmo se vou escrever um conto ou uma poesia.
Poesia sombria e pesada. Refletiva da realidade de um jovem perdido em pensamentos simples e sem filosofia ortodoxa.
Muito pesada para uma noite sem metafísica.
Existem noites sem metafísica?

Asfixia.
Derrubar cerveja na minha roupa sem se preocupar? Ficar aqui digitando sem se preocupar em acordar daqui a poucas horas para enfrentar uma longa e exaustiva jornada de trabalho? Não, o buraco é mais embaixo.
Asfixia.
Problema com o vizinho barulhento, o cachorro da rua não pára de uivar. Você vai pegando no sono e escuta aquele som ululante e irritante, cai em um meio sono e delira coisas sobre como discutir com o vizinho, como passar por cima dele com o seu carro quando avistá-lo na rua. O som agora é uma sirene de polícia, você tem que correr para fugir desse crime sem corpo e sem vítima real.
Você abre os olhos e percebe aos poucos o absurdo que estava pulando entre o seu consciente e inconsciente. Levanto e pego uma cerveja, abro e cai um pouco na minha camiseta.
Asfixia.

Paralisia.
Pego o carro de manhã e já fico parado no trânsito na esquina perto da minha casa. Você começa a observar os carros a sua volta, olha para a mulher se maquiando, para o velho apertando sua verruga no canto esquerdo do bigode, para o farol petrificado na cor vermelha e com a cor enrugada pela fumaça do caminhão de lixo.
O filme pára quando alguém bate na sua janela. Magro, aparência maltrapilha, faltam alguns dentes na boca e as unhas grandes estão tão escuras que percebo mesmo de longe. Batia com uma moeda no vidro fechado e depois me mostrava. Camisa de algum deputado que não lembro o nome, o farol continua no vermelho, mesmo assim alguns carros avançam. Nego o trocado e levo um soco no vidro em resposta.
Segundo suas previsões, vou morrer naquele mesmo dia.
Paralisia.
Trinta minutos para andar uns dois quarteirões. No rádio um quarteirão de música e outro de propaganda.
Paralisia.
Vou tomar café e o atendente está de mau humor como sempre. Peço uma média com um pouco de leito frio, e recebo um olhar de reprovação por pedir algo fora do padrão. A média demora, e só chega depois que devorei o pão na chapa a seco. O líquido escorre pela borda do pires, a nata gruda pela lateral. Paralisia.
Dou apenas um gole e largo o resto no balcão.
Fila no caixa para pagar.
Paralisia.
E isso era para ser uma poesia.


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