::. Sobre o Escrever
Ítalo Marquez | 29/04/2006

Eu sempre pensei que poderia afogar as minhas mágoas nas palavras, numa dedicação digna, num patamar onde a escrita seria tão simples como as palavras faladas, com a diferença de não se perderiam ao vento quando as colocamos para fora. Elas viveram como uma cópia apagada do meu estado de espírito, um fax do coração enviado aos dedos, transmitido à caneta, máquina ou teclado qualquer.

Escrevi sempre para tentar entender a mim mesmo, explicar o que aquele turbilhão de sentimentos significavam. Escrevia o que me vinha a cabeça, a sensação que tinha na pele, o meu estado de ânimo e a relação que tinha com todo o ambiente animado e inanimado que me circulava. Escrevia para tentar me ver num espelho dos meus próprios pensamentos. Era como se, lendo tudo o que eu havia feito, estive repensando tudo o que havia pensado. Só que agora era um pensamento do pensamento que podia ser interpretado por mim mesmo.

Eu escrevo para ser alguém que nunca fui, ou mudar algo que não gosto em mim. Escrevo para melhorar meu caráter, piorar minha humildade. Escrevo para ser quem eu nunca poderia ser, e pra desfazer tudo o que desprezo fazer.

Escrevo coisas que nunca vi, histórias que aparecem na minha mente misteriosamente, entre mil personagens com vidas próprias. Cada um carrega um pouco de mim, e eu carrego um pouco deles. Na trama certa da garota gorda existem mil imagens que um dia vivi, o menino raquítico que vendia balas na esquina um dia foi filho do meu pai.

A inspiração nem sempre está presente. Quando ela desaparece, tento fechar os olhos por alguns instantes. Esqueço tudo o que pensei em escrever e deixo as palavras irem, soltas, para algum lugar. Às vezes elas vão para alguma história que fala de vaquinhas voadores nas montanhas distantes, ou de alguém no carro vendo e comparando o movimento da vida com o correr do carro.

Não é questão de escolha, escrever para mim sempre foi uma questão de nascimento. O filho já foi concebido por idéias e palavras que ficam rodando em algum lugar dentro do meu cérebro (ou não, sabe-se lá se não é mesmo a metafísica?). Em um determinado momento ele nasce letra por letra, palavra por palavra, chegam às frases, e vai a vida adulta com o ponto final.

Apesar de tanta naturalidade, escrever é difícil. Quando as palavras emperram, num movimento comparável a jogar um pedaço de aço em moedor de carne, o barulho é estridente e a manivela trava. Mascam-se as idéias que estão aqui, tão prefeitas, dentro de algum lugar. Uma centelha de inspiração que não consegue se acender, mas está lá, a centelha. Uma garganta que não engole, um ouvido entupido. Se ouve tão baixo.

E vêm o sentimento, o amor. Fica-se apaixonado e toda a inspiração voa em pedacinhos com um dente-de-leão. Vai flutuando, sem nunca conseguir se juntar novamente, voando por aí, fragmentos de uma antes perfeita flor. Com o tempo você percebe que o poder aniquilador do amor na inspiração nada mais é do que uma transição, como a largada que vira borboleta e para isso precisa descansar por um tempo, entrando em seu casulo alheio a tudo e todos. Um dia ela sai, sem saber bem o que aconteceu, estende as asas e vê que o que passou é um toque do dedinho da evolução. A amor, o verdadeiro amor, aperfeiçoa o estro, dá um saber único para as palavras que são preferidas. Bendito o apaixonado.


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