::. Bocage  
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::. MÚLTIPLAS FACES
 
 
   
 
Por ser um poeta de faces múltiplas a obra literária de Bocage não pode ser simplesmente incluída no gênero literário do Neoclassicismo ou Arcadismo. O Bocage que ficou conhecido em Portugal e no Brasil é o poeta boêmio, satírico e erótico, que freqüentava o bar do Nicola e o Botequim das Parras. Além disso, apesar de Bocage dominar a técnica do verso, sendo considerado, devido a isso, como clássico, sua poesia vai muito além das convenções literárias da época. Essa transgressão às normas faz de Bocage um poeta de transição entre o Neoclassicismo e o Romantismo.

Por isso, e porque é sua poesia que, sem sobra de dúvidas, anuncia os primeiros valores do Romantismo em Portugal que Bocage é considerado por vários estudiosos como um poeta Pré-romântico.

Apesar de ser fortemente influenciado pelo estilo dominante em sua época e fazer concessões ideológicas, políticas, sociais e religiosas para sobreviver, é comum encontrar na poesia de Bocage, principalmente nos poemas escritos depois de sua prisão, uma luta constante entre a razão iluminista e a emoção. Nessa luta dolorosa e angustiante a emoção sobrepuja a razão como se pode ver no fragmento do soneto abaixo:

" Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura,
Se a lei de Amor, se a Força da ternura
Nem domas, nem contrastas nem mitingas.

Se acusas os mortais, e os não obrigas,
Se, conhecendo o mal, não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura;
Importuna Razão, não me persigas."

Somente um Romântico escreveria versos como "Importuna Razão, não me persigas" ou "Deixa-me apreciar minha loucura" um neoclássico ou arcádico jamais faria algo semelhante. Se nos versos acima já encontramos algumas características do movimento literário que está por vir, no tema da Morte é que se pode perceber claramente que Bocage é uma espécie de profeta do Romantismo. Isso se dá porque todo o sofrimento da vida acaba com a morte, ela, a morte, é a única verdade da vida.

Oh retrato da morte, oh Noite amiga
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto!
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor, que a somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga:

E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.

Incapaz de encontrar uma forma nova que melhor correspondesse à novidade dos seus sentimentos, Bocage permaneceu um típico produto de transição. Citando as palavras de David Mourão Ferreira: " Com um pé nos degraus da Arcádia, com o outro suspenso ante os abismos enigmáticos do futuro, a sua posição de tão instável, tão depressa nos comove como logo nos impacienta".