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Como afirma o professor Segismundo Spina
"Gil Vicente, como outros grandes gênios da literatura
ocidental - desde Homero a Camões e Shakespeare - não
tem uma biografia segura, ignora-se o lugar de seu nascimento (...)
como se ignoram as datas de sua existência". O mais provável
é que ele tenha vivido entre os anos de 1465 e 1537.
Gil Vicente foi ourives oficial da corte, como afirmam seus biógrafos,
até por volta do ano de 1502, quando encenou a sua primeira
peça o Auto da Visitação ou Monólogo
do Vaqueiro, em homenagem ao nascimento do filho de D. Manuel
com D. Maria. A peça fez tanto sucesso que o levou a elaborar
outras, igualmente cheias de êxito.
Gil Vicente, além de ser colaborador na obra O Cancioneiro
Geral, de Garcia Resende desempenhou na corte a importante função
de organizar as festas palacianas. Ele alcançou tanto prestígio
na corte que ousou em 1531, pôr ocasião de um terremoto,
num discurso feito perante os frades em Santarém, censurar
energeticamente os sermões nos quais os frades explicavam a
catástrofe como resultado da ira divina. Na sua carreira de
dramaturgo, foi protegido pela rainha D. Leonor. |
Perfil literário
Gil Vicente foi sem dúvida um homem que viveu um conflito interno,
por conta da transição da idade Média para a Idade
Moderna. Isso quer dizer que foi um homem ligado ao medievalismo e ao mesmo
tempo ao humanismo, ou seja, um homem que pensa em Deus mais exalta o
homem livre.
O Autor critica em sua obra, de forma impiedosa, toda a sociedade de seu
tempo, desde os membros das mais altas classes sociais até os das
mais baixas. Contudo as personagens por ele criadas não
se sobressaem como indivíduos. São sobretudo tipos que ilustram
a sociedade da época, com suas aspirações, seus vícios
e seus dramas (tipo é o nome dado aos personagens que apresentam
características gerais de uma determinada classe social). Esses
tipos utilizados por Gil Vicente raramente aparecem identificados pelo
nome. Quase sempre, são designados pela ocupação
que exercem ou por algum outro traço social (sapateiro, onzeneiro,
ama, clérico, frade, bispo, alcoviteira etc.). Ainda com relação
aos personagens pode-se dizer que eles são simbólicos, ou
seja, simbolizam vários comportamentos humanos.
Os membros da Igreja são alvo constante da crítica vicentina.
É importante observar, no entanto, que o espírito religioso
presente na formação do autor, jamais critica as instituições,
os dogmas ou hierarquias da religião, e sim os indivíduos
que as corrompem.
Acreditando na função moralizadora do teatro, colocou em
cenas fatos e situações que revelam a degradação
dos costumes, a imoralidade dos frades, a corrupção no seio
da família, a imperícia dos médicos, as práticas
de feitiçaria, o abandono do campo para se entregar às aventuras
do mar.
A linguagem é o veículo que Gil melhor explora para
conseguir efeitos cômicos ou poéticos. Escritas sempre em
versos, as peças incorporam trocadilhos, ditos populares e expressões
típicas de cada classe social.
A estrutura cênica do teatro vicentino apresenta enredos muito simples.
Provavelmente as peças do teatrólogo eram encenadas no salão
de festas do castelo real.
O teatro de Gil Vicente não segue a lei das três unidades
básicas do teatro clássico (Grego e Romano) ação,
tempo, espaço.
A ideologia das obras vicentinas apresentam sempre o confronto entre a
idade Média e o Renascimento ou Medievalismo (Teocentrismo versus
antropocentrismo).
As obras de Gil Vicente podem ser divididas em três fases distintas:
1ª fase (1502/1508)
- Juan del Encima
- Temas Religiosos
2ª fase (1508/1515) - Problemas sociais Decorrentes da expansão
marítima Destacando:
- "O Velho da Horta" (obra de cunho hedonta);
- "Auto da Índia".
3ª fase (1516/1536) - Maturidade artística
- "Farsa de Inês Pereira", que tem como tema é
a educação feminina;
- "Trilogia das Barcas", uma critica social e religiosa.
A obra teatral de Gil Vicente pode ser didaticamente dividida em dois
blocos:
Autos: peças teatrais de assunto religioso ou profano;
sério ou cômico.
Os autos tinham a finalidade de divertir, de moralizar ou de difundir
a fé cristã.
Os principais autos vicentinos são: Monólogo do Vaqueiro;
Auto da Alma; Trilogia das Barcas (compreendendo: Auto da Barca do Inferno;
Auto da Barca da Glória, Auto da Barca do purgatório); Auto
da Feira, Auto da Índia e Auto da Mofina Mendes.
Farsas: são peças cômicas de um só
ato, com enredo curto e poucas personagens, extraídas do cotidiano.
Destacam-se Farsa do Velho da Horta, Farsa de Inês Pereira e Quem
tem Farelos?
A obra vicentina completa contém aproximadamente 44 peças
(17 escritas em português, 11 em castelhano e 16 bilingües).
A análise do "O Auto
da Barca do Inferno" também está a sua disposição
na seção Análises
Literárias. Confira!!
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